As (minhas) Amizades na Vida Adulta

Há uns tempos li um artigo que, basicamente, dizia que o preço de uma comunidade era o desconforto. Que, com a necessidade de dar prioridade ao nosso bem-estar e de “protect our peace” que nos tínhamos isolado e que era preciso sair da nossa zona de conforto, ir jantar a casa daquela amiga que vive num 5º andar sem elevador, sair de casa quando está a chover…

Talvez por me ter revisto neste artigo, o tempo passou e ele não me saiu da cabeça.
Quem me conhece “por alto” (principalmente dos eventos) acha que sou uma pessoa bem-disposta e social.
Quem me conhece a sério sabe que tenho uma costela de bicho-do-mato, que a parte de mim que enraizou, que tem que ser hiperindependente (conversa para outro dia), se junta ao lado ansioso e que, juntos, ficam overwhelmed e só querem ficar em casa (mesmo que depois fique a atrofiar, a bater com a cabeça nas paredes e até com um pouco de FOMO).

Até aos 30, que fiz na pandemia, eu fazia um esforço para não ser esta pessoa. Trabalhava muito e mesmo assim ia aos jantares (há uma história da vez que cheguei a um jantar tão cansada que adormeci no chão da sala e tiveram que me acordar depois do jantar para eu ir para casa), ia dançar e a quase todos os programas a que me convidassem (também porque vivíamos mais ou menos perto e se eu refilasse me vinham buscar a casa).
Com o confinamento tudo mudou: passar demasiado tempo isolada fez-me ficar com ansiedade social, com uma insegurança gigante em quem eu era e com o meu corpo (a primeira está resolvida, a segunda é antiga e ainda estou para descobrir como viver com isto).

Agora (e não, não estou a inventar desculpas) tenho um novo “problema”: a Flora. Esta cadela foi a melhor decisão que tomei no último ano, adoro-a de morte – mas tem uma ansiedade de separação enorme, o que me deixa ainda mais ansiosa e reticente em fazer o que for (sim, eu sei que os cães são o reflexo dos donos, parem de bater no velhinho).
Se por um lado quero que ela aprenda a ficar tranquila sozinha porque não a posso levar para todo o lado, por outro não consigo não me sentir culpada de querer ser a pessoa que muda a vida toda – mesmo toda – por causa do cão (exemplo: gostava de ir a uma festa no próximo fim-de-semana, durante o sunset. Tenho que deixar a Flora na crate e ando a treiná-la para ir para lá mais cedo na hora de ir dormir. Ela chora porque sabe que eu estou na sala e parte de mim quer chorar também, parte quer deixá-la lá e parte só pensa nos vizinhos).

Depois do tal artigo (que podem ler na íntegra aqui), não sei se por ser um tema real ou se pelo algoritmo achar que era algo que eu precisava, continuaram-me a aparecer artigos/posts/vídeos deste assunto – o que fez com que fosse muito difícil deixar de ser tema (na minha cabeça).

Com a mudança de casas e escolas e por não ter andado na faculdade mais do que 6 meses, cheguei aos 30 (ia dizer à vida adulta, mas acho que não é justo) com poucas amigas. Poucas mas boas, que é como se quer, certo?
São amigas que me conhecem, que me compreendem, tentam que eu saia da minha bolha e não me julgam quando não consigo. É um porto seguro, uma segurança emocional que tenho na vida e que provavelmente não verbalizo o suficiente.

Passámos de pedir roupa emprestada a combinar babysitting para os miúdos no fim-de-semana (eu a realizar o meu sonho de ser a tia das coisas boas, como a Tia Marta foi para nós – mais uma história para outro dia).
De partilhar publicações de anúncios de festas a vídeos com dicas self-care.

Temos vidas tão preenchidas que não sei como é que conseguimos combinar seja o que for. E mesmo sabendo isso, li um post sobre os “doorbell friends” e fiquei ressentida por não ser essa pessoa. Eu deixei de ser a pessoa que tomava iniciativa sequer, quer seja com mensagens como com convites, quer tenha sido pelo medo da “rejeição” quer pela incapacidade de olhar para a to do list e perceber onde é que iria encaixar o que fosse (mas juro que tento).

Quando é que os objetivos de vida e o calendário demasiado preenchido justificam não ter tempo para as pessoas?
E sim, esta pergunta é para mim própria, porque é uma luta constante que eu tenho. A minha irmã chama-lhe ter prioridades, mas quando é que se tornou normal as pessoas não serem uma prioridade?
É aceitável eu só combinar coisas entre as 9h e as 20h? Quando é que posso aceitar que não consigo (e na verdade não quero) fazer as coisas que fazia antes dos 30, mas que quero muito ter as pessoas da minha vida na minha vida?

Há uma ou duas semanas acabei o dia sentada num jardim, com as minhas amigas e uma das suas crianças. Corremos, jogámos à bola (à vez, estou em baixa forma física), brincámos com a Flora e conversámos de tudo um pouco. Foi perfeito.

Não conseguimos fazer aquela coisa de estar juntos a fazer coisas, apesar de eu ter lido algures de alguém que fazia as tarefas de casa ao telefone com uma amiga. Faziam as tarefas juntas, cada uma em sua casa, e iam pondo a conversa em dia. Achei muito bonito, até porque eu sinto que nos falta este apoio nas coisas básicas (mas talvez seja só o meu ADHD não diagnosticado).

Posso não ter amigos de campainha, até porque estou a tentar arranjar uma casa ainda mais longe desta que tenho agora, mas espero conseguir manter estes amigos que tenho agora. Posso ir para mais longe mas juro que vou criar um sítio em que se possa ir e ficar. Podem vir almoçar e ficar para jantar. Podem vir e ficar a dormir. Podem acordar de manhã e pensar “vamos visitar a Maia” porque sabem que vão ter sempre espaço (físico e mental).

Não demonstro mas tenho constantemente saudades das minhas amigas. Parte de mim ainda se agarra ao que fomos, mas gosto mesmo muito do que somos agora e não trocava isso por nada.
Podia prometer mudar e deixar de ser hiperindependente e de me isolar por tudo e por nada, mas depois dos 35 estou a tentar ser mais realista com os objetivos que coloco a mim mesma.

Acho que por agora me basta enviar uma mensagem às amigas a dizer o quanto gosto delas (e espero que façam o mesmo, vão ver que é importante).

Beijinhos e bom domingo,
Maria Maçã

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