Quero escrever sobre o que é o sucesso desde que participei num episódio do No Bad Vibras, em Junho.
Primeiro, se não sabem o que é o No Bad Vibras, estão a viver debaixo de uma pedra? Segundo, deviam ouvir. Eu que não sou pessoa de podcast (défice de atenção) adoro ouvir este, não só porque já adoro a Inês à muito tempo (somos amigas do Twitter, literalmente) ou porque a Joana é uma fofa muito cool (estava mega nervosa e senti-me automaticamente bem recebida, sabem?), mas porque neste podcast se fala de TUDO sem tabus, os temas são variados e damos por nós a rir como se tivéssemos sentadas numa esplanada com um grupo de amigas.
Em cada episódio cada pessoa (Inês + Joana + Convidada) trazem uma vibra que é debatida. No episódio em que participei a vibra da Inês era o que é para nós o sucesso e quais as nossas medidas de sucesso.
E foi tipo um murro no estômago, porque eu no início do ano que tinha lido algo do género “sucesso é um sistema nervoso equilibrado” isso não me saia da cabeça. E na altura queria responder e as únicas coisas que me vinham à ponta da língua eram relacionadas com trabalho. E eu não quero ser definida pelo que faço! Sim, adoro o meu emprego e não o trocava por nada (apenas evoluções disto, nunca outra coisa se tudo correr bem), mas quero mesmo deitar-me à noite e sentir-me bem sucedida pelas pequenas coisas, sabem?

Enfrentar a estranheza social que se entranhou em mim na pandemia é um desses sucessos, aceitar o meu corpo também (sim, era a pessoa que não ia à praia com ninguém sem ser um grupo restrito de amigos e família). Mas o peso que o trabalho tem continua a ser demasiado grande, continua a fazer com que a minha necessidade de ser produtiva seja esmagadora e uma fonte inesgotável de ansiedade – e nas últimas semanas dei por mim a entrar em espiral.
Eu cresci numa quinta com cães, a primeira vez que vivi sem eles foi quando fui para a faculdade, tinha 19 anos. Mas eles estavam lá, eu podia agarrar-me a ele e enchê-los de beijos todos os fins-de-semana. A vida dá muitas voltas e acabei em Lisboa, sem animais de estimação, durante uma série de anos até que, quando me mudei para casa da minha mãe na pandemia, o meu irmão arranjou um labrador para a minha mãe. Xisto, o nosso cão da pandemia, primeiro cão de apartamento, o meu atual melhor amigo.
Quando voltei a viver sozinha, um dos objetivos era claro: tenho que me organizar e ter um cão, porque agora que o meu cérebro se tinha relembrado da alegria que enche a alma a viver com estes seres de quatro patas, não queria outra coisa.
E foi assim que a Flora entrou na minha vida.

A regra dos meus pais era um cão para cada filho, e o meu tinha sido um English Cocker Spaniel, e acho que veio dai esta vontade de voltar a ter um. Procurei durante meses por um criador até que encontrei uma senhora no Porto. Esperei por uma ninhada específica, e no início de Setembro a Flora entrou a correr, literalmente, cá em casa.
Ainda só passaram duas semanas mas continuo a olhar para ela e a sorrir, a pensar em tudo o que vamos fazer juntas.
A primeira semana foi meia que tranquila, xixis nos resguardo, tudo calmo. Claro que nesta segunda semana ela se transformou num demónio, não há nada que ela não roa (incluíndo rodapés e um buraco que tenho no chão da sala) , rouba-me os sapatos, xixis por todo o lado… ah! E aprendeu a ficar amuada no corredor sempre que ralho com ela – hilariante.
Tinha tudo organizado com a Matilde em termos de trabalho para ficar duas semanas com ela em casa, para a ambientar e começar a ensinar a ficar sozinha (não está fácil, verdade seja dita, mas havemos de conseguir) e… uma lista gigante de coisas para fazer enquanto tivesse em casa. Desde ideias de conteúdo para gravar como arrumações e decorações que queria fazer e também um montão de trabalho de computador.
E como é que correu? Pessimamente mal. Não fiz nem metade das coisas, senti-me mal por não estar a aproveitar o meu cão, senti-me mal por não estar a ser produtiva, a ansiedade da lista gigante deu-me insónias, o cansaço fez com que não tivesse energia para fazer nada. E a lista continuava ali, a assombrar-me.
E é aqui que entram outra vez as medidas de sucesso: quem me fez mal para eu achar que tenho que ser produtiva 24h por dia, 7 dias por semana?
Se ter um cão era uma medida de sucesso para mim, porque é que não consigo filtrar tudo o resto?
Tenho ficado overwhelmed com o conteúdo que vejo, porque sinto que estou a falhar com tudo o que me desafiei a fazer. Percebo que tenho que registar mais a minha vida, mas mesmo assim não o faço. Passo o dia a ver ideia incriveis e criadores a evoluir e sinto que estou sempre a meio gás.
Tenho objetivos, porque é que não tenho força de vontade para os cumprir?
Serei eu que estou a falhar ou estarei sempre a elevar a barra para me sentir eternamente um falhanço?
Ah pois é, a auto-sabotagem é real meus amigos – e não se recomenda.
Agora que despejei tudo cá para fora, posso dizer que… não me sinto sempre assim, a verdade é esta. Foram estas duas semanas em casa que me ajudaram a cair neste buraco. Sempre li que os criativos precisam de se sentir aborrecidos para criar, mas no meu caso o aborrecimento nunca chega, a ansiedade ganha sempre a corrida.

Tenho muito que trabalhar – psicologicamente – para chegar mais perto daquele objetivo de sucesso, o o sistema nervoso. Mas entretanto vou tentando, ao máximo, agarrar-me às pequenas coisas e a respirar fundo e definir prioridades. Este fim-de-semana tenho três primas pequeninas cá em casa – a primeira festa do pijama deste apartamento!
Eu tive uma tia cool, a solteira da família que nos levava de fim-de-semana para casa dela e fazíamos maratonas de filmes, passeios no Jardim Zoológico, idas ao cinema. Eu quero ser essa tia, é uma medida de sucesso para mim, por isso ontem tive o dia todo sem trabalhar, comemos doces, jogámos UNO (com batota, sabiam que isso existe). Hoje vamos passear para um parque e, quem sabe, continuar a maratona dos filmes da série Divergente (só nos falta um, também).

Amanhã vou de férias com a minha mãe, a Matilde e os cães (Flora e Xisto). Hoje tenho malas para fazer e um esforço mental para apagar da To Do List tudo o que não é importante. Para poder aproveitar estes 5 dias na praia para desfrutar do tempo, da companhia, do sol e do mar.
Desejem-me sorte! E, já que eu atirei para aqui tudo isto, sintam-se à vontade para atirar de volta o que vos vai na alma. Juntos é mais fácil ir em frente.
Beijinhos e bom domingo,
Maria Maçã





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